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A acumulação do amargo e suas consequências: uma reflexão sobre o conceito de amargo entre os Pano

Domain:

natural language processing

Record type:

paper
Creator:
Mai
Publisher:
Uni
Host:
Esta tese investiga o conceito de amargor entre os grupos da família linguística Pano da Amazônia, focado no grupo Huni Kuĩ, antes denominados Kaxinawá. A concepção de Muká que, em termos gerais significa amargo, é uma categoria que permeia a vida desses grupos associado a dimensão do xamanismo e dos ciclos de vida. O oposto dessa categoria, Bata, que significa doce, assim como salgado/agradável, ocupa como correlato oposto sua cotidianidade nas dimensões da classificação, ontologia e mito. Tais categorias podem ser substâncias concretas visíveis ou invisíveis, que possuem seus respectivos sabores na gustação, assim como transcendem a questão do sabor no âmbito bucal. Muká e Bata são códigos semântico/gustativos/espirituais que foram analisados pela etnologia e abordados por inúmeros enfoques. O proposto neste trabalho é pensar o amargor e sua correlação com as plantas ditas psicoativas. Entretanto, a noção de amargor e de vegetal entre os Pano, possui uma concepção particular, o que fez necessário uma análise da ontologia do vegetal, assim como uma teoria dos sentidos, já que Muká está relacionado a vegetais que produzem fortes afecções no corpo, associado aos espíritos Yuxĩ. Para tal empreendimento reflexivo, coube analisar e avaliar o cenário da Ciência que estuda as relações dos grupos humanos com as plantas, já que seu aparato conceitual as concebe como seres não-sencientes, somente passíveis de classificação e extração. Tal aparato de grande valia e produção teórica consistente, em muitas situações demonstradas, não deu conta da complexidade relacional-conceitual que Huni Kuĩ mantém com as ervas medicinais em sua cotidianidade. Tal relação pode contribuir para antropologia e etnobotânica com a provocação conceitual Kaxinawá. Considerando então o aparato conceitual da etnobotânica, o trabalho busca, junto ao conceito nativo, não pensar o humano e planta já dados, mas seu processo de individuação pelo xamanismo Huni Kuĩ. Para isso, compreender a noção de acumulação de Muká, e da vegetalidade que envolve o processo de formação do especialista espiritual Huni Kuĩ, alterou o conceito botânico vigente do que é um vegetal. Os aparatos vegetais que são utilizados nesses processos da produção do corpo, são conceituados como plantas psicoativas por essa ciência, neste contexto são então problematizados pela lógica Kaxinawá. A planta considerada a expressão concreta do amargor, Darë Muká, se relaciona com o humano por meio dos sonhos, modificando o corpo da pessoa assim como sua sorte no mundo. Neste quesito, uma ecologia sensorial nativa em um cenário multinatural é o contexto onde este trabalho se desenvolve.

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