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O Vácuo de Poder no Sahel: Uma Visão Comparada

Domain:

peace and security
Creator:
GOU
Editor:
Sen
Publisher:
Edi
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A região do Sahel, faixa localizada na África Subsaariana entre o Saara e as planícies africanas centrais, caracterizada por seu clima semiárido, tem se consolidado como um dos epicentros geopolíticos mais voláteis do século XXI (CARTWRIGHT, 2020). Na porção ocidental da região, encontram-se diversos estados que se enquadram na concepção da “Françafrique”, termo que descreve a rede de influência política, econômica e militar da França sobre suas ex-colônias na África. Desde o final da década de 2000, a escalada de violência, somada a crises de governabilidade, pobreza endêmica e transformações climáticas, agrava a situação, já sensível, de um ambiente de instabilidade multifacetada. Esse quadro tornou-se particularmente agudo ao longo da década de 2020. Entre 2020 e 2025, quatro países centrais da dinâmica política do Sahel — Mali, Chade, Burkina Faso e Níger — passaram por rupturas institucionais decorrentes de golpes de Estado. Esse processo foi motivado e acompanhado por discursos políticos que expressavam forte contestação à presença francesa e às estruturas de cooperação historicamente estabelecidas com Paris (OKOLI; HAQUE, 2024). Subsequentemente, observa-se a intensificação da presença russa na região, especialmente por meio de acordos de cooperação securitária e da atuação de proxies associados ao Estado russo, como o Grupo Wagner (GW). Diante dessa complexa reconfiguração de poder, que questiona fortemente a posição histórica de Paris em sua “chasse gardée” africana, é possível entender o Sahel em uma lógica de competição multipolar. Com base na Análise dos Sistemas-Mundo (ASM) de Immanuel Wallerstein, que fundamenta a compreensão das dinâmicas atuais de poder no Sistema Internacional do século XXI, percebe-se a redistribuição do poder entre as novas potências, que buscam contrabalançar a hegemonia dos Estados Unidos e de seus aliados, bem como o reconhecimento do fortalecimento de um sistema multipolar e da interdependência crescente entre os países (PENNAFORTE, 2020; WALLERSTEIN, 2011). Sob esse prisma teórico, Wallerstein (2011) delimita a existência da hegemonia ocidental estadunidense, que se encontra contemporaneamente em declínio estrutural, manifestado no enfraquecimento da capacidade de Washington e de seus aliados de moldar a ordem mundial. Arrighi (1996) interpreta esse processo como parte do esgotamento do atual Ciclo Sistêmico de Acumulação liderado pelos Estados Unidos, o que abre espaço para novas formas de organização da economia-mundo capitalista. Complementarmente, Pennaforte (2020) destaca que o surgimento de países de atuação antissistêmica é uma consequência direta do declínio econômico e geopolítico das potências centrais, o que impulsiona atores da periferia, como os Estados do Sahel, a buscar alternativas que ampliem suas margens de autonomia estratégica. Nesse contexto, a retirada progressiva da presença francesa e a expansão da influência russa sugerem a emergência de um processo de reconfiguração das relações de poder externo no Sahel. Assim, o presente trabalho parte do seguinte problema de pesquisa: a expansão da presença russa no Sahel, no contexto da retirada francesa, configura um processo de transição hegemônica regional, em um preenchimento de um vácuo de poder, ou apenas uma reacomodação das formas de influência externa na região, sintomática da alteração da economia-mundo contemporânea? Assim, o objetivo geral deste trabalho consiste em analisar a crise de legitimidade da presença francesa no Sahel e investigar a natureza da expansão da influência russa na região no contexto da recente onda de golpes de Estado, avaliando em que medida essa dinâmica pode ser interpretada como um processo de transição hegemônica ou como uma reacomodação das relações de poder na região, em um cenário que questiona a presença neocolonial de potências centrais. Do ponto de vista metodológico, a pesquisa adota uma abordagem qualitativa baseada em análise bibliográfica e documental. O estudo fundamenta-se na literatura acadêmica especializada em geopolítica africana, teoria das Relações Internacionais e segurança regional, bem como em relatórios de organismos internacionais, publicações de centros de pesquisa e peças da mídia. A análise busca articular essas contribuições teóricas à interpretação dos eventos recentes observados na região em mais cinco capítulos, que abordarão, respectivamente, a situação geopolítica atual da região, o histórico francês em sua “chasse gardée”, a crescente presença russa e sua motivação, o papel que outros países competidores têm nesse movimento e as considerações finais do autor.

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Relações InternacionaisÁfricaSahelVácuo de Poder

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