Resumo: A influência que a moderna arquitectura brasileira exerceu sobre a produção portuguesa na segunda metade do século XX é facto amplamente provado e já estudado pela historiografia. É igualmente possível traçar o itinerário que fomentou a aproximação entre as duas culturas arquitectónicas e o modo como os arquitectos portugueses reuniram um conhecimento alargado sobre as realizações brasileiras desse mesmo período. Sabe-se da importância de Brazil Builds – Architecture New and Old 1652-1942, que os portugueses manuseiam desde meados da década 40, assim como das revistas internacionais que acumulam (caso da revista francesa L'Architecture d'Aujourd'hui cuja famosa edição dupla sobre o Brasil de 1952 seria muito disputada entre os portugueses) e que folheiam à procura de novidades do Brasil. Estas relações intensificaram-se com a passagem de duas exposições de arquitectura brasileira por Lisboa, num momento de abertura do país à cultura internacional decorrente da vitória Aliada na II Guerra. A primeira ocorre entre 1948 e 1949 nas instalações do Instituto Superior Técnico, permanecendo aberta ao público durante apenas 3 dias. Torna-se relevante face à repercussão que teve no arquitecto português Sebastião Formosinho Sanchez (19222004) que então endereça uma carta à direcção da revista Arquitectura destacando a superioridade da produção brasileira sobre o que os portugueses projectam, mesmo os de inspiração moderna. A publicação desta carta funciona como uma chamada de atenção colectiva para o progresso da arquitectura brasileira. A segunda exposição é inaugurada na sequência da realização do Congresso da União Internacional de Arquitectos, em 1953, também na capital portuguesa. Esta última é amplamente reportada na imprensa especializada. Na sua delegação chegam a Lisboa personagens como Lúcio Costa (cujos artigos são publicado na revista Arquitectura) e Wladimir Alves de Souza, cuja conferência terá grande impacto. Uma das personagens mais referenciadas é contudo Burle Marx, com direito a artigos exclusivos. É precisamente enquanto participante nos trabalhos de montagem desta exposição que iremos encontrar um outro arquitecto português, Francisco Castro Rodrigues (n. 1920), às vésperas de embarcar definitivamente para território angolano onde trabalhará até aos anos 80. Castro Rodrigues levará na sua bagagem, muita informação sobre a arquitectura brasileira. No Lobito, onde se instala, será um dos responsáveis pelo Núcleo de Estudos Angolano-Brasileiros, uma organização à margem do poder político interessada em explorar as proximidades entre Angola (à época sob governo colonial português) e o Brasil. Rodrigues cumprirá o sonho de realizar uma exposição de arquitectura brasileira no Lobito somente em 1961. "Arquitectura Moderna Brasileira" é o título desta exposição itinerante, para a qual prepara um catálogo e uma palestra onde enaltece a técnica brasileira do concreto armado (betão nú, como lhe chama), a modernidade cultural e os laços históricos que unem os angolanos aos brasileiros. É ainda visível o modo como a produção deste arquitecto é atravessada pelo imaginário brasileiro que tanto admira. Existe, portanto, um itinerário de transmissão da cultura brasileira em território português que acaba por se comunicar também às regiões africanas como é prova a história particular de Francisco Castro Rodrigues e das exposições onde esteve presente, quer como espectador quer como organizador.
Abstract: Portugal and the modern Brazilian culture have some proximity, which can be identified in Portuguese architectonic production. This relations began with the publication of Brazil Builds – Architecture New and Old 1652-1942, that the Portuguese known since the early forties, and continues after the end of modern times. There are also examples of that influence in the African colonies that Portugal keeps until 1975, as can be proved by the example of the young Portuguese architect Francisco Castro Rodrigues (b. 1920) and his work in Angola. These relations intensified with the passage of two exhibitions of Brazilian architecture for Lisbon, at a moment of opening of the country to the international culture resulting from the victory Allied at the War II. The first one takes place between 1948 and 1949 in the installations of the Superior Technical Institute (Instituto Superior Técnico), remaining opened to the public during only 3 days. It becomes relevant, face to the repercussion that had in the Portuguese architect Sebastião Formosinho Sanchez (1922-2004) who addresses a letter to the direction of the magazine Arquitectura detaching the superiority of the Brazilian production. The second exhibition is inaugurated in the sequence of the realization of the Congress of the International Union of Architects (UIA), in 1953, also in Lisbon. Lucio Costa (which articles are published in the Arquitectura) and Wladimir Alves de Souza (whose conference will have great impact) are some of the Brazilian architects who arrived in Lisbon with the exhibition. It is while participant in the works of assembly of this exhibition that we will be going to find Francisco Castro Rodrigues, before boarding definitely for Angolan territory where he will work until the eighties. In the Lobito, where he is installed, he will be one of the persons in charge for the Brazilian-Angolan Nucleus of Studies, an organization alongside the political power interested in exploring the proximities between Angola (to the time under colonial Portuguese government) and Brazil. Rodrigues will accomplish the dream of carrying out an exhibition of Brazilian architecture in the Lobito only in 1961, entitled "Modern Brazilian Architecture". It is visible the way his own production is crossed by the Brazilian imaginary. The story of Francisco Castro Rodrigues proves that exists an itinerary of transmission of the Brazilian culture in Portuguese territory that is communicated again also to the African regions, and the exhibitions of Brazilian modern architecture were part of this itinerary.
8° Seminário Docomomo Brasil: anais: Cidade moderna e contemporânea: síntese e paradoxo das artes [recurso eletrônico] / organização: Roberto Segre. Rio de Janeiro: Docomomo-RJ; Prourb-UFRJ, 2009. ISBN: 978-85-88027-11-4.