Propomos uma análise do romance Essa dama bate bué! da angolana Yara Monteiro, ambientado na Angola pós-guerra civil. Num percurso de autodescoberta, Vitória, a narradora-protagonista, descobre efeitos da guerra para além de sua dimensão histórica: a cisão subjetiva e irreversível legada aos sobreviventes. Assim, dentre as leituras possíveis, investigamos como a memória atravessa o romance na tensão entre desejo de esquecimento e vontade de lembrar, acabando por atuar como constituição subjetiva da protagonista, ao mesmo tempo que recupera a presença da mulher nos fatos históricos de Angola. Vitória vai em busca da própria história e da mãe, encontrando, nesse percurso, a trajetória de outras mulheres de ontem e de hoje e, com elas, a história já escrita da nação e aquela ainda à espera de acontecer. A partir das contribuições teóricas de Paul Ricoeur (2007), Grada Kilomba (2019), Achille Mbembe (2018) e Oyèrónkẹ́ Oyěwùmí (2021), entre outros, discutimos como a memória, atravessada por silêncios, traumas e lacunas, atua como espaço de reconstrução identitária e reinscrição do sujeito. O romance evidencia que lembrar não significa recuperar integralmente o passado, mas elaborar modos possíveis de pertencimento diante das ruínas da história. Portanto, compreendemos que a memória atua no romance angolano contemporâneo como um importante operador inventivo (Santilli, 2004), operando menos como retorno ao passado e mais como elaboração crítica do presente, numa espécie de recomposição mútua com o passado, entrecruzando subjetividade e história.