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Cristianismo no Congo

Type de record:

paper
Créateur:
Car
Éditeur:
Uni
Hôte:
Na costa atlântica do continente africano, a formação política Kongo, situada em torno do rio Congo para sul, constitui um caso singular de relação secular e duradoura com o cristianismo. Em 1491, na sequência das viagens do Diogo Cão, o Mwene Kongo Nzinga Nkuwu aceitou o baptismo que lhe foi proposto pelos religiosos portugueses. Desde então, iniciou-se um processo complexo de integração e apropriação de formas rituais e Simbólicas do cristianismo, acelerado, em particular, durante o período de Afonso Mvemba Nzinga (1504-1542). Desde o início, a incorporação do cristianismo no Kongo resultou de uma decisão autónoma das lideranças políticas locais. O processo complexo de tradução cultural entre io mundo teológico cristão e a cosmologia kongo, heterogéneo e descontínuo, pleno de ambiguidades e mal-entendidos, contou com a activa participação de membros da aristocracia kongo enviados para Portugal para estudar ou formados localmente nos preceitos da fé. Diferentes ordens religiosas desenvolveram actividade na região, entre os sécs. XV e XIX, com destaque para os jesuítas e os capuchinhos. Dessa presença resultou, além de inúmeros relatos e descrições sobre a realidade social na região, alguns impressos à época, um conjunto de instrumentos linguísticos, entre cartilhas, catecismos e vocabulários, que fixam o modo como diferentes conceitos e práticas rituais foram traduzidos para o sistema de referências kongo. O cristianismo e o processo correlato de apropriação da escrita reforçaram a tendência de aglutinação do espaço político em torno do centro Mbanza Kongo. Abriram, ao mesmo tempo, um canal de comunicação diplomática que o Kongo manipulou de forma a contrariar a pressão política, económica e religiosa da Coroa portuguesa e da sua colónia em Luanda, e defender a sua própria esfera de interesses à escala do Atlântico. Depois da fragmentação do Kongo que sobrevém à batalha de Mbwila, em 1665, o cristianismo, ou pelo menos, as formas consolidadas da sua apropriação e os agentes locais desse processo continuaram a jogar um papel político e social relevante, mesmo quando a presença das ordens religiosas europeias era já escassa ou virtualmente inexistente. Esse enraizamento está bem reflectido nos sucessivos movimentos proféticos que eclodiram ao longo do séc. XVII e cujos ecos serão ainda visíveis na viragem para o século XX, quando novos protagonistas religiosos ali chegarem. O volumoso e diversificado arquivo documental continua a suscitar debates teóricos e metodológicos importantes sobre a natureza dos processos de apropriação, resignificação e hibridismo cultural gerados no contexto desta relação histórica.