Numa experiência de educação bilingue (2008-2012), uma turma de crianças de origem portuguesa e cabo-verdiana adquiriu, aprendeu e desenvolveu o cabo-verdiano oral e escrito, a par do português, desde o 1º ano, em contexto semi-formal. Apresenta-se aqui o resultado dum estudo longitudinal das produções escritas (durante dois anos e meio) de uma das crianças de origem portuguesa, inicialmente monolingue. A análise incide sobre a aquisição de algumas estruturas básicas do cabo-verdiano que diferem substancialmente das correspondentes portuguesas: morfologia verbal (não flexional); determinação do N, com foco no determinante nulo; marcação do número no SN e sistema de TMA, com foco no morfema apectual/modal ta. O número residual de transferências, em todos os casos, aponta para uma estratégia de aquisição que não assenta na projecção da gramática da língua materna, mas antes favorece o contraste com ela. Ao contrário dos outros aspectos gramaticais, de aquisição precoce e bem sucedida, a aquisição do TMA, mais lenta e marcada por erros, sobretudo em contextos de fluência discursiva, permite defender a hipótese de que as estruturas mais rapidamente adquiridas são as menos pesadas, na sua morfologia expressa, mais transparentes ou reguladas por princípios informacionais, como os de não redundância e de vagueza.